sexta-feira, 5 de abril de 2013

O problema do mal - O Deus que não existe

O problema do mal é até onde sei o mais famoso argumento ateísta contra a existência de Deus.

Ele tem diferentes versões oficiais, e além destas, também é raciocinio aplicado para outros argumentos ateístas como "Se Deus existisse não permitiria isso" ou "Se Deus existisse, não teria inferno" "se Deus existe pq deixou o diabo fazer tudo que faz", etc.

Vou apresentar algumas versões do mesmo:

VERSÃO 1
Premissa 1 - Se Deus existisse, impediria a existência do mal
Premissa 2 - O mal existe.
Conclusão: Logo, Deus não existe

VERSÃO 2:
Permissa 1 - Deus, se existe, é bom
Premissa 2 - Se Deus fosse bom, impediria a existência do mal
Permissa 3 - o mal existe
Conclusão: Logo, Deus não é bom. Logo, não existe


VERSÃO 3:

Premissa 1 - Se Deus fosse totalmente bom, não deixaria o mal existir
Premissa 2 - O mal existe
Conclusão: Logo, Deus não é totalmente bom.

VERSÃO 4:
Premissa 1 - Se Deus fosse onipotente e onisciente e bom, Ele impediria a existência do mal.
Premissa 2 - O mal existe
Conclusão: Deus não existe.
E em aprofundamento desta, se explica:
Seria Deus desejoso de prevenir o mal mas incapaz? Portanto não é omnipotente. 
Seria ele capaz, mas sem desejo? Então é malévolo. 
Seria ele tanto capaz quanto desejoso? Então por que há o mal?




Soluções populares:
Varia-se a versão, mas a estrutura se mantem basicamente assim: Uma afirmação de que Deus se existisse, deveria impedir a existência do mal, e a afirmação de que o mal existe.

Há 3 tentativas que vi de resolver.


1 - A pior, na minha opinião é a alegação de que Deus é acima do nosso entendimento e pronto. Acho que é uma apelação para a irracionalidade. Além disso, como teólogo, eu só posso estudar Deus segundo uma idéia de que Deus é de alguma forma estudavel, compreensivel.

2 - há uma tentativa de negação da afirmação de que o mal existe. Um fracasso, na minha opinião. Vocês podem já ter recebido um e-mail onde supostamente Einstein é interrogado sobre o mal e compara o mal com a escuridão (que na verdade é a ausência de luz) e o frio (que é a ausência de calor), colocando o mal como uma ausência do bem. O argumento é na minha opinião injusto: existem coisas ruins como sofrimento que são mais do que meramente a ausência de prazer. A mentira é mais do que ignorancia. O ódio é mais que o desprezo, é uma inversão do amor e não apenas ausência do amor. Portanto defendo que: o mal existe.

3 - A terceira solução é a negação da premissa que se baseia ainda em uma suposição: que Deus, dados seus atributos, teria necessariamente de desfazer o mal.
Repare-se que apesar da forma de convincente, a premissa nunca é provada.

Argumenta-se da existência de um "bem superior" que envolve a existência do mal.

Pretendo demonstrar que este tipo de bem, que de fato envolve a existência do mal, de fato existe e está no nosso dia a dia.

Gostaria antes de mostrar uma contradição numa versão particularmente simplista do argumento:


VERSÃO 2:
Permissa 1 - Deus, se existe, é bom
Premissa 2 - Se Deus fosse bom, impediria a existência do mal
Permissa 3 - o mal existe
Conclusão: Logo, Deus não é bom. Logo, não existe

Vamos INVERTER esse argumento para um simétrico que deveria ser lógicamente equivalente:

Premissa 1 - Se Deus fosse mal, impediria a existência do bem
Premissa 2 - O bem existe
Conclusão: Logo, Deus não é mal.

Isso nos leva a uma contradição: Deus é mal e não é mal? Isso fere a nossa simplista lógica do bem e do mal.


Agora, aprofundando sobre esse tipo de pensamento que qualifica pessoas como "boas" ou "más" como se fosse preto ou branco vejamos alguns exemplos que mostram a falha de tal método simples de analise e expor a necessidade que temos de um sistema EXATO de julgamento:

- Se um médico não curou um paciente, então ele não é totalmente bom.
- Um médico corta seus paciêntes na busca de cura-los de doenças. Logo, o médico é mal
- Um serial killer faz bem para uma pessoa de quem gosta no dia a dia. Logo, ele é bom.
- Um serial killer permite que pessoas boas existam. Logo, um serial killer não é mal.
- Um assassino decide torturar sua vitima antes de mata-la. Logo, deixou de fazer um mal, e portanto não é mal.

Esses casos se diferem um tanto do divino no aspecto da onipotencia, mas demonstram a existência de fatores importantissimos na analise exata da bondade e maldade de alguém:
- A INTENÇÃO é muito relevante para determinar a bondade do individuo, não apenas atos,
- A ausência de ações boas não faz uma pessoa ser má em sentido pratico, e vice-versa.
- Alguém pode fazer o bem em uma area e o mal em outra, e ser bem intencionado ou mal intencionado
- É uma questão MUITO complexa.

Podemos usar um sistema rigorosissimo de bondade e maldade, um sistema que exige certa pureza. Nele, um médico por exemplo que corta seu paciente (o que é mal) para eliminar um mal é uma pessoa má em parte e boa em parte. Até ai, é razoavelmente justo. Tem lógica. O problema é que em oposição uma pessoa que se recusasse a fazer a cirurgia num paciente, deixando-o morrer, poderia ser qualificado em termos de AÇÃO como uma pessoa que não fez mal nenhum e é totalmente boa. Exceto se considerarmos a necessidade de agir, e a permissão do mal como um mal em si.

Em sintese: podemos usar diferentes sistemas para julgar, mas eles nos dão alguns aspectos da bondade e maldade de individuos, não todos.

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Voltando a questão, quero deixar claro que se Deus fez (por ação ou omissão) o mal num sistema RIGOROSO de definição de bondade onde bondade implica NECESSARIAMENTE em não permitir que o mal ocorra Deus NÃO é TOTALMENTE bom.

Mas semelhantemente, Ele não é TOTALMENTE mal uma vez que permite o bem existir (por ação ou omissão). Mais que isso: este método de analise significa que todos nós somos assim: nenhum de nós impediu a existência do mal, e nenhum de nós impediu a existência do bem. Da pessoa mais amorosa a mais cheia de ódio, o "nada", as pedras, TUDO é assim, inclusive Deus.

Devemos considerar porém que essa é uma definição restrita, fria, de conceito de bondade e maldade.

Nela, portanto Deus é: Não totalmente bom, e Não totalmente mal.

Isso confere em parte com a bíblia onde Deus diz que faz o bem e o mal

Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas. 
Isaías 45:7
O pensamento é impopular, mas coerente com a bíblia onde Deus é um justiceiro punidor que permite o mal também até aos inocentes e justos como Jó. Contradiz porém um conceito de Deus, de que Deus é TOTALMENTE bom se usarmos esse sistema para definir o que é ser totalmente bom.
Mas mais importante: isso significa que enquanto nossa noção de Deus pode estar errada, o Deus NARRADO na bíblia continua encaixando-se com a realidade. As descrições inexatas dos atributos divinos, nunca feitas com rigor cientifico, podem até falhar, mas aquilo que se deduz das obras divinas torna Deus BIBLICO coerente com a existência do bem e do mal.
Ou seja, o argumento ateísta atinge uma DESCRIÇÃO do divino, não o Deus NARRADO, o personagem bíblico que continua dentro das possibilidades de existência deste mundo.

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Mas eai? Porque Deus seria assim?
Porque, ou sem porque, é necessário reconhecer que É! Num sistema rigoroso, especifico, Deus não é totalmente bom nem totalmente mal, e sim bom em parte (faz o bem) e mal em parte (faz o mal). A sua obra é uma obra envolve as duas essencias. É necessário reconhecer que os ateístas ACERTARAM dada a descrição dada do divino, e que merecem honras e reconhecimento pela eficiencia no campo teológico.

Mas paremos um pouco e pensemos: Pode existir Deus sendo parcialmente mal?

Infelizmente ou não: SIM.

A figura mais próxima de um Deus criador atualmente é um criador de mundos virtuais de jogos de computador e video-game. Essas pessoas existem, mesmo tendo criado mundos que contém o mal. Monstros, violencias, doenças até mesmo que atingem personagens guerreiros, não impedem (nem de longe) a existência destes individuos. Ao contrario, eles intencionalmente criam grandes vilões, inimigos, monstros e também fortes armas, poderes de cura, heróis para enfrenta-los. Faz parte do mundo deles a coexistencia do bem com o mal e o combate entre as duas essencias e, desde que os jogadores nisso se dediquem, a vitória do bem.

O mal que existe (assim como no nosso) é um mal sustentavel, ou seja, que pode existir, e que não destrói a realidade em si. Apesar de muitos jogos serem horriveis em sua violencia, ou extremamente dificeis (ou pior: ficarem sem saída em alguns momentos) nenhum deles deixa de existir, nem seus criadores, e é claro: nenhum daqueles sistemas com fisica própria criada artificialmente surgiu por evolução, fruto de uma explosão.

Também note-se que os criadores continuam onipotentes diante de seu próprio mundo fisico, podendo criar padrões no jogo que viram leis, mas também criar miraculosos códigos anti-gravidade, imortalidade, etc. Naturalmente, os mundos virtuais são bem mais simples matemáticamente por enquanto que o nosso, mas são bem reais em si.

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O bem acima do bem e do mal

O mais importante porém, é perceber que a existência do mal NÃO é o fim do mundo. Primeiramente note-se da possibilidade de existir também o bem, apesar do mal. Mas note-se ainda algo mais: existe sim uma utilidade para o mal. Nos jogos, ao menos, as coisas más servem como obstaculos, fonte de aprimoramento de técnicas dos jogadores, desafios...
O bem e o mal coexistem no jogo. Geralmente o jogador é praticamente a unica força do bem contra enormes hordes de inimigos como zumbis, monstros, exercitos do mal, mas ele por sua habilidade consegue derrota-los. O mal serve como forma de treinar o bom jogador a desenvolver mais e mais suas habilidades, seu carater moral, sua capacidade de resolver problemas...
Estou vendo é claro, os jogos mais positivos. Há também jogos com mecanica mais voltada para a liberdade. Nem todos jogos tem livre arbitrio (espaço para fazer o bem ou o mal), mas entre os jogos mais populares é comum encontrar essa possibilidade.

O livre arbitrio ARTIFICIAL é um fruto de nossa agencia. Aconselhavel ou não, ele existe. É lógico que a própria criação do mesmo demonstra que não é prioritário impedir que o jogador seja mal, assim como a criação de um mundo com inimigos demonstra um desprezo pela existência do mal em si, mas isso é um fenomeno COMPROVADO na nossa criação.

O livre arbitrio é um tipo de bem que envolve a existência do mal. A capacidade, não aprovação, do mal, que muitas vezes em jogo é punida, é algo coerente com um atributo ignorado nesse foco no bem: o PODER.

Outro tipo de bem superior é a justiça: a justiça da recompensa, recompensa pelas obras, diante das obras boas e más, implica necessariamente em fazer o bem aos bons e o mal aos maus. É uma coisa tão boa que nós humanos temos o nosso próprio sistema jusdiciario. Serve como desestimulo a maldade, ainda que fazendo-a no ato de punição.

Outro exemplo que não podemos esquecer é o do médico: um médico corta, mas cura. É um bem superior, um bem do "os fins justificam os meios". Mas certamente, é um bem superior que só pode existir se for feito também o mal de cortar.

Outro exemplo ainda é o da reviravolta: em roteiros de filmes e jogos é comum em certos momentos se sofrer uma grande perda, como a morte ou aparencia de morte de alguém, e esse ressucitar ou ressurgir de modo que a alegria surge pela percepção da possibilidade de perda. È como uma musica envolvendo o bem e o mal, buscando fazer um bem diferente de meramente criar a paz: criar uma sensação de triunfo.

Falando em triunfo, muitas virtudes fazem sentido com o mal. A capacidade de perdoar se desenvolve com a existência de algum pecado alheio, assim como a cura se faz com a doença. A habilidade se desenvolve com relativa facilidade tentando se contornar obstáculos.
Até mesmo a dor nos serve de aviso de que algo no nosso corpo deve estar quebrando, e maus cheiros nos repelem de comida estragada.

Há toda uma complexa engenharia com o bem e com o mal, e há coisas que são boas para determinados fins. No final, a conclusão de todo este problema é: A existência do mal é inconclusiva para determinar não-existencia de Deus, mas serve para restringir a definição do Divino possivel, o que nos leva a um ateísmo para com uma certa idéia do divino, mas preserva o Deus bíblico e sua bondade "além do nosso entendimento" ainda dentro do mundo de possibilidades reais.


Teistas e ateistas: eu procurei ser justo com todos, peço que confirmem que o que falei faz sentido ou que deem seus argumentos.

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